Zumbi, Cesare e aposentados
Seg, 23 de Novembro de 2009
Onde há opressão, há resistência! Toda discriminação e injustiça, por mais fortes que sejam, cedo ou tarde são questionadas.Há 314 anos, Zumbi, líder maior do Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas, preferiu lançar-se num despenhadeiro a ser capturado e morto pelos seus inimigos, a soldo dos escravistas, dos algozes do povo negro. Hoje, o 20 de novembro é o Dia Nacional da Consciência Negra: afirmação da nossa afrobrasilidade e recusa ao racismo sutil que persiste entre nós.
Na noite de terça para quarta, 17/18 de novembro de 2009, cena inusitada nos corredores da Câmara dos Deputados que dão acesso ao plenário Ulysses Guimarães: absurdamente barrados no seu direito de acompanhar a sessão das galerias, aposentados fazem vigília, dormindo ali mesmo, em condições precárias. "Collor foi incomodado pelos caras pintadas. Lula, o PT e seus aliados, por sua incoerência, estão sendo cobrados agora pelos caras enrugadas", diz um dos manifestantes. Por que tanto lutam? Por dignidade na velhice, por remuneração sustentável, pelo fim do "fator previdenciário", que retira salário. Por cidadania, que não tem idade.
Nesta saga de resistência, vale, por fim, a palavra do escritor italiano Cesare Battisti à comissão de parlamentares e representantes de entidades que foram visitá-lo no presídio da Papuda, em Brasília, no dia 17/11: "Assumi perante a direção do presídio da Papuda que minha greve de fome é responsabilidade inteiramente minha. Nessa situação extrema em que estou, irei ao meu limite máximo. Não é ímpeto suicida não. Conheço a cadeia italiana. Minha sentença lá, por "crime político", vai começar com seis meses sem ver a luz do sol. Isso destrói, como já aconteceu com tanta gente! Não vou morrer nas mãos dos meus carrascos, prefiro eu mesmo dar um fim ao meu corpo. Estou há 30 anos nessa batalha, e já muito cansado: sou uma pessoa normal, que, quando pode, foi socialmente útil, com meu trabalho, com meus escritos. E condenado a revelia, sem nenhuma prova técnica, material. Um condenado que jamais foi ouvido, por um juiz ou um policial sequer. Apenas perseguido implacavelmente, em especial na era Berlusconni, com tanto retorno de comportamentos mafiosos. É paradoxal o STF determinar minha extraditação por "crime comum" quando a sentença italiana foi de "crime político". O ministro Marco Aurélio, no seu alentado voto, destacou a minha condição de ativista político por 36 vezes! E lembrou também da prescrição, passado tanto tempo. Não é possível confundir minha atuação política pregressa com atitude criminosa. Virem minha vida de cabeça pra baixo, desde que nasci: onde está o perfil do criminoso, do assassino? Renunciei à luta armada antes das mortes que me são atribuídas, sem qualquer prova além da delação premiada de uns quantos. A decisão de não mais aceitar aquele caminho foi política e coletiva: muita gente poderia testemunhar isso, mas nem contatadas foram. Estou angustiado, claro, mas não perco a esperança. Gratíssimo por essa visita. Esse gesto humanitário, para mim, nessas condições, é tudo!"
Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 19 de novembro de 2009.
Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL/RJ



